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São Carlos cria políticas de inclusão para travestis

terça-feira, 11 de setembro de 2012


A travesti Patrícia D’Brown, de 26 anos, faz programas sexuais desde os 17, depois de ter sido demitida do emprego de empacotadora em um mercado por puro preconceito. Tornou-se uma pessoa fria para o amor por conta dos perrengues que já enfrentou na noite. Zanzou muito tempo pelas ruas, época em que foi roubada pelo menos seis vezes. Também já foi abandonada por alguns clientes, outros tentaram levar seu dinheiro e houve um que atirou na moça porque ela se recusou a transar sem preservativo. Chegou a fazer perto de 20 programas em uma noite, mas de dois anos para cá só dá atendimento a conhecidos, que a contatam pelo celular, em encontros que podem durar de cinco minutos a duas horas. Tem em mente a possibilidade de viajar no ano que vem para a Europa estimulada pelos relatos de uma amiga que conseguiu um bom dinheiro “fazendo a vida” em Roma, na Itália.

Patrícia acompanhou a reportagem pelas ruas da cidade de São Carlos, no interior paulista, onde vive, detalhando todas as características, como os pontos de prostituição de mulheres, os de travestis, e os de tráfico de drogas, todos em avenidas próximas à rodovia Washington Luiz, a SP-310. Gabou-se de conhecer a região como a palma de sua mão e lembrou do tempo em que a polícia era violenta com as meninas. “Antes eles batiam, hoje não mais. Se o governo faz políticas públicas, a polícia respeita”, comentou, acrescentando que se os policiais flagram a travesti com alguém em lugar impróprio eles apenas pedem para saírem. “As coisas melhoraram muito, mas antes a gente apanhava muito.”

A política pública à qual Patrícia referiu-se tem origem na fundação da ONG Visibilidade LGBT, em 2009. Logo depois de criada, a entidade cobrou do município a realização de uma conferência para discutir políticas públicas, e hoje a legislação local garante a realização do encontro de dois em dois anos. No mesmo ano foi criado o Conselho da Diversidade Sexual. Em 2011, a Divisão de Políticas para Diversidade Sexual, e em 2012, o Plano de Políticas para Diversidade Sexual, que prevê ações e metas para a próxima década. “Com isso, São Carlos é a primeira cidade do país a completar o tripé da Cidadania LGBT”, disse o chefe da Divisão de Políticas para a Diversidade Sexual”, Alexandre Sanches. “A cidade consolidou as ações e tornou-se referência na política de atenção às minorias”, afirmou.

Em 18 de maio passado foi realizada pela prefeitura de São Carlos e a ONG Visibilidade LGBT a quarta edição da Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). O evento tem crescido ano a ano com objetivo principal de estimular o combate à homofobia e lutar pela cidadania de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. O tema desta edição foi “Contra a discriminação e impunidade, homofobia também é crime”. O evento passou de 10 mil participantes em 2009 para 50 mil neste ano.

Inclusão

Para incentivar a inclusão do grupo LGBT no mercado de trabalho, a Divisão de Políticas para Diversidade Sexual, em parceria com a ONG Visibilidade LGBT, desenvolveu o programa de empregabilidade. No primeiro semestre, por exemplo, foi ministrado um curso de confecção de biojoias de 36 horas com foco, não exclusivo, nas travestis, e já eram planejados outros – de chaveiro, trançadeira, de confecção de sacolas e de imãs de geladeira, ainda em fase de implementação. No caso das biojoias, por exemplo, a aluna adquiria um kit com peças por R$ 100 e conseguia faturar R$ 400.

Parece pouco, mas é um começo. Uma porta que pode se abrir na direção contrária à prostituição. É por falta de aceitação da sociedade que as travestis abandonam os estudos e, por consequência, têm limitadas as possibilidades de atuação profissional, daí a fazerem a vida nas ruas. Um problema que começa dentro de casa, com a rejeição dos pais e, em geral, a expulsão do convívio familiar.

Algo que se estende para o ambiente escolar, onde as travestis enfrentam ataques de bullying, em especial porque não são tratadas por seus nomes sociais, aqueles que adotam quando se assumem de outro sexo. É muito cruel para um homem que nasceu com identidade de gênero feminina, e aceita essa condição se travestindo, ser chamado pelo nome de registro. Na hora da chamada, por exemplo, os colegas se acabam de rir quando a menina é chamada por nome masculino.

Fonte: Rede Brasil Atual 

Esta notícia foi publicada em terça-feira, 11 de setembro de 2012 a 13:39 na categoria Notícias São Carlos.

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